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Nos bastidores da televisão ---> Crítica ao livro "Sobre a televisão" de Pierre Bourdieu Em
“Sobre a televisão” Pierre Bourdieu faz uma crítica aos jornalistas
(especialmente televisivos), estabelecendo um paralelo entre o telejornalismo e
a política. Descreve os diferentes mecanismos que compõem a televisão e que
expõem a uma grande influência as diferentes esferas da produção cultural,
e, até mesmo, a política e a democracia. Suas críticas se fundamentam nas análises
que faz da televisão na sua busca incessante pela mais ampla audiência e nas
concessões que ela faz, diariamente, a uma visão estreita e manipuladora. Pierre
Bourdieu tece comentários e reflexões que são de grande influência, inteligência,
percepção e coragem, pois nos revela a complacência narcísica de um mundo
jornalístico muito propenso a lançar sobre si próprio um olhar falsamente crítico.
Aos poucos vão se revelando as estruturas que formam o telejornalismo, desde os
diretores das emissoras, passando pelos editores, publicitários, jornalistas,
apresentadores, até os telespectadores e críticos. Tudo isso apoiado num sólido
e eficiente sistema de apoios, influências, politicagens e manipulações. A
intenção do autor não é de combater os jornalistas, mas de associá-los a
uma reflexão, tanto que ele se preocupa em demonstrar que o “jogo” jornalístico
midiático, muitas vezes, se dá quase que inconscientemente. O autor tem a
exata noção do poder que a televisão exerce no mundo inteiro e, por isso,
busca detectar os desvios dos quais ela, fatalmente, se utiliza para obtenção
dos seus interesses. E consegue, na medida em que identifica as limitações e
imposições da televisão que vão além até mesmo do controle político e
econômico. “Sobre
a televisão” destrincha os mecanismos ocultos, anônimos, invisíveis, através
dos quais se exercem as censuras de toda ordem que fazem da televisão um formidável
instrumento de manutenção da ordem (simbólica). Chama a atenção do leitor
para o lado contrário ao da ação da televisão, servindo-nos como um grande
amplificador da visão, fazendo-nos enxergar até o fim de um horizonte mais
amplo. Percebe-se, assim, a clara intenção do autor de apontar os erros dos
rumos da televisão, que se constitui num amplo e muito difundido instrumento de
banalização, mas que é o árbitro do acesso à existência social e política.
Não são, portanto, simples observações, mas críticas bem fundadas,
ponderadas e reveladoras, que vão contra o efeito de barreira mental da televisão.
Ao fim da leitura percebe-se como a televisão “evoluiu” para um estágio de
“mentalidade-índice-de-audiência”, onde se pensa em termos de sucesso
comercial, e o mercado é, cada vez mais, reconhecido como instância legítima,
se impondo às produções culturais. Ficam nítidos os efeitos políticos e
culturais que podem resultar da comunicação banal, das informações instantâneas,
homogeneizadas, sendo repassadas continuadamente aos telespectadores. Há de se
concordar com o autor, que reflete sobre o moralismo dos jornalistas, já
perfeitamente ajustados às sólidas estruturas da televisão, que, por sua vez,
está perfeitamente ajustada às estruturas mentais do público. Quando afirma
que “nossos apresentadores de jornais televisivos, nossos animadores de
debates, nossos comentaristas esportivos tornaram-se pequenos diretores de
consciência que se fazem, sem ter de forçar muito, os porta-vozes de uma moral
tipicamente pequeno-burguesa, que dizem o que se deve pensar sobre o que chamam
de os problemas da sociedade”, o autor faz, acertadamente, uma constatação
que deveria estar ao alcance de todos os milhões de telespectadores: os
jornalistas impõem ao conjunto da sociedade seus princípios de visão do
mundo, sua problemática, seu ponto de vista. Acontece que, no estágio mercadológico
que alcançou a televisão, os pontos de vista jornalísticos são frutos do já
sólido sistema de busca, a todo custo, pela audiência, que permite obter
sucesso comercial. Portanto, “Sobre a televisão” é um livro recomendável, importante e inteligente, pois revela-nos a importância de se conhecer as limitações, censuras e imposições de um campo jornalístico que é dominante em relação às produções culturais e que interferem diretamente na vida de milhões de pessoas. Passa ao leitor uma mensagem esclarecedora, de luta contra o índice de audiência, que não é nada mais senão a sanção do mercado, da economia, isto é, puramente comercial. A essência do livro se traduz numa frase, que deveria ser conhecida por todos, pois é de vital importância: “A televisão regida pelo índice de audiência contribui para exercer sobre o consumidor supostamente livre e esclarecido as pressões do mercado, que não têm nada de expressão democrática de uma opinião coletiva esclarecida, racional, de uma razão pública, como querem fazer crer os demagogos cínicos”. Este pensamento crítico é importante, pois serve até como iniciativa para o surgimento de (novas) organizações encarregadas de exprimir os interesses dos dominados, que estão muito longe de pensar com clareza esse problema, a fim de provocar uma ruptura na conservação desses valores estabelecidos. Lucas
P. Bender - 19/09/2003
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